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sábado, 19 de novembro de 2011

Entre querer e ser (Ao agir desta forma, os estudantes da USP se consideram seres superiores e privilegiados em relação aos demais universitários )


 




Na lista das 200 melhores universidades do mundo, conforme ranking de ensino superior da QS World, a USP - Universidade de São Paulo sempre foi referência de ensino de qualidade e uma bandeira contra o autoritarismo que reinava nos anos de chumbo do período militar. Com as cenas degradantes veiculadas na mídia ao longo dos últimos dias, com a ocupação do prédio, retirada dos universitários, passeatas e greves. A USP voltou ao cenário não pela sua produção acadêmica, mas por ter mudado radicalmente o perfil de parte dos seus alunos, que antes iam às ruas para protestar contra a ditadura e hoje defendem o 'liberou geral'. Uma parcela insignificante – mas barulhenta - foi capaz de mobilizar 300 policiais, helicópteros e a Imprensa em geral para cobrir a retirada destes jovens que, para muitos, nem sabiam =mente qual o real motivo da luta em razão da série de pedidos que foram sendo agregados à manifestação. A verdade é que este grupo de arruaceiros quer se diferenciar dos demais. A motivação do movimento deu-se após um grupo de estudantes ter apedrejado soldados que conduziam à delegacia três rapa-zes do Curso de Geografia da FFLCH, flagrados portando pequenas quantidades de maconha.

O fato revoltou parcela dos universitários da faculdade que passaram a exigir a saída da PM do campus, a mesma que era proibida de circular antes do assassinato do estudante Felipe Ramos de Paiva, 24 anos, morto com um tiro na tentativa de assalto no estacionamento da faculdade. Diante do clamor, a PM voltou a circular pelo local - após assinatura de convênio com a universidade - e os números atestam que a decisão foi acertada. Queda em 90% no furto de veículos; de 87,5% em seqüestro - relâmpago, 77,8% em lesões corporais e 66.7% em roubos. Quem conhece a USP sabe como é fácil ser assaltado, especialmente à noite, em razão da iluminação falha, distância entre os prédios e vegetação em abundância. Portanto, não ha' razão destes alunos quererem ser diferentes dos demais. A alegação que a PM interfere na autonomia universitária é um balela. A Unicamp tem sua própria polícia e também conta com apoio da Polícia Militar que desempenha no campus a mesma cobertura observada em Campinas. Os estudantes têm os mesmos direitos e deveres como qualquer cidadão. Antes de universitários, são cidadãos iguais aos outros, pois ao agir desta forma tais jovens se consideram seres superiores e privilegiados em relação aos demais.


 

O Cafezinho da tarde na USP

A Universidade de São Paulo se transformou no centro da educação brasileira. Das socialites aos estudantes, dos políticos aos jornalistas, dos com- ar - condicionado aos sem-nada, muitos resolveram incluir a USP na agenda, ainda que não a conheçam, ainda que não a dimensionem dentro do sistema educacional brasileiro. Com apoio de parte da imprensa, praticante do jornalismo "copia e cola", pronta para vomitar as versões mais conservadoras ou elitistas, a ocupação da reitoria por universitários se transformou em um circo com uma lona maior do que o esperado. Mas o resultado nos conduziu ao mesmo endereço: a esquina onde a desinformação e o preconceito se encontram. Estudantes e policiais militares serviram como canais que carregam sintomas de uma sociedade doente, cega como grupo e manca como consciência coletiva. Os estudantes mal são ouvidos. Ouvir com orelhas tortas não é escutar. As premissas indicam que todos ali são maconheiros e filhinhos de papai, frutos de um sistema que privilegia o topo da pirâmide em detrimento da base sócio-econômica. É claro que muitos universitários se lambuzam com leituras teóricas em diagonal, o que os leva a crer na possibilidade de promover uma revolução sem contexto, como se estivessem congelados na década de 60. No entanto, isso não condena os estudantes que compreendem a natureza ética e social de seus papéis e, acima de tudo, percebem o quanto falta senso de coletividade no meio acadêmico, por vezes afogado em mesquinharias científicas, de costas para o mundo além dos muros e das grades. Soa irresponsável associar como questão absoluta a vida universitária e o tráfico de drogas. O consumo não representa prerrogativa ou exclusividade do meio universitário. O assunto é questão de saúde pública e permeia todos os segmentos sociais. Associar vida estudantil à compra e venda de drogas lícitas e ilícitas é de um reducionismo ofensivo, máscara de cínicos.

Outro sintoma de uma sociedade fora do eixo é perceber como se distorce o papel e os limites da Polícia Militar. Via de regra, a sociedade teme a polícia e a associa a comportamentos irregulares. Só que, quando precisa de alguém para fazer a faxina indesejável, o mesmo grupo corre para bajular a instituição policial. Na ocupação da reitoria da USR, parte da sociedade — da boca miúda aos gritos histéricos —defendeu que os policiais batessem nos universitários. Que abusassem da autoridade e da violência, tão criticadas na mesa de chá e vibrantes na pele do Capitão Nascimento.

O autoritarismo e a intolerância se misturam com a patrulha do politicamente correto, escravo do pensamento único. A tradução é varrer dos olhos quem pensa ou se manifesta fora do padrão. É marginalizar o alheio, sem direito à defesa ou à voz de reivindicação.

A ocupação do prédio da reitoria da USP, somada aos conflitos com a PM, além dos protestos da última semana importam menos diante de um cenário onde prevalecem a ausência de diálogo e de poder de escuta. Vence o prazer de ouvir os próprios grunhidos de truculência, mesmo que desinformados, superficiais e fragmentados. Neste sentido. PM é guarda de patrimônio, jamais de gente, independentemente da conta bancária.

Alguém se lembrou de aproveitar o calor dos fatos e discutir o sistema universitário, a violência na USP ou a educação brasileira, excludente e formadora de castas? São enredos que não animam a sala de jantar.

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