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segunda-feira, 16 de junho de 2014

O COMPLEXO ATO DE EDUCAR

Talvez nossos olhos estejam cansados. Talvez o coração bata aflito por não saber mais o que renovar.
Quem sabe espaços mais arejados? Tecnologia de ponta em todos os ambientes? Criação de todos os nichos que possam existir - cantinho da pintura, casinha da leitura, sala da música, toca da ciência...
O professor tenta arranjar uma forma de chamar a atenção!
Um que leva o violão e dá suas aulas cantarolando; a professora que vai vestida de fadinha; uma que se pinta de borboleta; tem um que vai para a sala descalço; tem quem se atreve a arrepiar os cabelos e se caracterizar de Einstein... e por aí vão cada uma de todas as imaginações que surgem como fórmulas, quase mágicas, na cabeça de todos os mestres.
Mas dei conta que estão todos entorpecidos e acabaram por entrar na engrenagem da desilusão.

Mesmo afastada das salas de aula, recentemente, participei de uma palestra oferecida pela política municipal aos professores da rede. O assunto era a preocupação com o desinteresse em massa dos alunos durante o período que passam na escola.

Ouvi tantas asneiras! Ouvi tantos descasos do poder público em relação a alunos e docentes. Só não ouvi o professor... também não ouvi o aluno. Sim, seria importante ouvir o aluno e o que ele fala sobre a escola, como ele a vê e como ele queria que ela fosso. Isso! Não é utopia, não. Talvez pudesse dar certo.

Sai com infinitas questões e mais um tanto de dúvidas, porque muito se disse e não se disse nada.

Mais uma vez a sensação de que se voltou para a casa de mãos vazias.

Logo que cheguei em casa, depois do banho para relaxar e do café bem quente para restaurar u ânimo voltei-me à reflexão...


Retomei uma conversa anterior com uma das minhas sobrinhas, a Larissa, que hoje está numa universidade. Menina brilhante, tranquila, que possui pensamentos claros desde muito cedo, talvez por conta da criação familiar. Um dia, enquanto fazíamos um bolo, ela com seus 14 anos, me disse "a escola anda chata! Os professores entram, mandam a gente abrir o livro e ficar lendo. Dai ele sai da sala e diz que volta depois, pra tirar as nossas dúvidas. Toda aula é assim. E quando ele fica com a gente ele senta no fundo da sala e cruza as pernas e fica olhando para um lugar que não é a gente, tia!". Perguntei que matéria era, não que se justifique essa atitude para qualquer conteúdo. Acho que aulas são aulas e devem ser transmitidas com entusiasmo e uma sequência plausível. seja ela qual for. Ela respondeu-me que eram aulas de Literatura e que outras vezes era gramática. Sim, o professor fazia eles estudarem gramática lendo sozinhos as teorias e sem uma ligação com a leitura. Depois ela me disse - "Mas não é só um professor que faz isso! São quase todos. Eles, muitas vezes dão os números das páginas ou colocam exercícios na lousa e depois saem na porta para ficar falando um com o outro. E quando agente começa a conversar na sala e o barulho vai aumentando eles ficam nervosos e mandam um monte de nós para a sala da diretora que nos coloca sentados no banco do pátio e gente tem que esperar até as aulas acabarem e daí a gente vai pra casa."

Fiquei chocada, na época ( 5 anos atrás). Mas me veio essa conversa à mente por se tratar da visão de um aluno, no caso minha sobrinha, muito dedicada e interessada que acabava por se desestimular da instituição escolar.

Na palestra que participei ouvi, na hora do cafezinho, duas professoras e um professor, que despejavam para mim, feito loucos, num processo catártico ou numa profunda ebulição, o descaso dos alunos em sala de aula, o desrespeito.


Bem, salas de aulas são movimentadas mesmo. O processo de ensino/aprendizagem requer experimentações, trocas, partilhas - a tão falada e nunca respeitada Zona de Desenvolvimento Proximal, lembra?


Fiquei pensando se esses professores que estavam aturdidos com seus alunos faziam o mesmo que os professores da minha sobrinha faziam - davam comandos e saiam de cena, ou se ficavam na cena não atuavam de acordo.


E mais uma vez concluí o quão complexo é o ato de EDUCAR, sistemática ou assistematicamente.


Veio-me então que - EDUCAR É PRECISO! Mas educar o quê? Quem? Onde? Quando?


A resposta foi ligeira! EDUCAR É PRECISO! Sempre, em todos os lugares. É preciso educar em todos os ambientes, em todos os tempos e idades. É um processo contínuo, vitalício no mundo.


Há que se haver um limite para alunos e professores. Há que se repensar dos dois lados - do lado de quem educa e de quem é educado pela escola. Que por sua vez devemos promover situações que conduzam nosso educandos a fazer o mesmo. 


Realmente, nossos olhos estão cansados e o coração apertado. Chegamos num tempo de transbordo. Muitos desgastes. Inesgotáveis teorias para práticas escassas.


Depois deste texto, talvez não muito consistente e nem tanto pertinente, deixo uma sugestão de leitura que nos ajuda a redimensionar nossos pensamentos - SOBRE EDUCAÇÃO E JUVENTUDE, do sociólogo, Zygmunt Bauman.


Do livro: 

"Qual o papel da educação num mundo em que não há mais visão clara de futuro? Que função devem desempenhar os educadores quando os jovens se defrontam com profundas incertezas quanto à sua sorte e às expectativas de uma vida estável? Atualmente, na era da modernidade líquida, já não são as universidades que formam os profissionais bem-sucedidos. Os valores do mundo de consumo exigem que as pessoas esqueçam hoje o que aprenderam ontem e aprendam hoje o que devem esquecer amanhã. Sendo assim, qual a tarefa da educação nesse universo que dispensa a aprendizagem e desdenha a acumulação de conhecimentos? Neste livro contundente, o renomado sociólogo Zygmunt Bauman reflete sobre o destino dos jovens e o papel da educação e do educador diante do panorama atual da sociedade, traçando para os educadores um novo caminho: fomentar a resistência e o espírito crítico. E prescreve: pela escola que devemos recomeçar."

No mais vamos caminhando, certos de que ainda podemos fazer algo...

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